Morte de motociclistas em BH aumenta 215% em nove anos
Estudo da Abramet mostra que, entre 2002 e 2006, frota de motocicletas cresceu 57% na capital mineira
Um veículo ágil e acessível, mas que pode se transformar em uma verdadeira arma e matar. Somente em 2005, quase 600 motociclistas morreram no trânsito em Belo Horizonte. Em 1996, foram 188. Os dados foram divulgados pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) e mostram que, no período de nove anos, o número de óbitos resultantes de acidentes com motos cresceu cerca de 215% só na capital mineira.
Se o número de acidentes com motocicletas e, consequentemente, o de vítimas tem aumentado no país, a frota também tem crescido. Enquanto a quantidade de automóveis aumentou 19% entre os anos de 2002 e 2006, o acréscimo no número de motocicletas no trânsito foi de 61% no Brasil. Só em 2006, conforme o estudo feito pela Abramet, 1,7 milhão motos estavam trafegando pelas ruas das capitais brasileiras.
Belo Horizonte é a 14ª capital brasileira em número de motocicletas. Foram 101.451 contabilizadas há dois anos. Em 2002 eram 64.601. O aumento foi de 57%. Em número de automóveis, a capital mineira está em 8º no ranking.
Um dos óbitos contabilizados pela Abramet há três anos talvez seja o do filho da dona Raimunda Elias Ribeiro Silva, de 59 anos. Ele era um motociclista que fazia de entrega em Contagem para reforçar o orçamento doméstico. "Era 1º de outubro, ele tinha 24 anos. Chegou em casa do trabalho, tomou banho e foi trabalhar de novo para ajudar a família. De noite aconteceu o acidente no bairro Eldorado. Levaram ele para o hospital e seis dias depois ele morreu", relatou a dona de casa, que está internada na Unidade Ortopédica Galba Veloso, na capital, se recuperando de um acidente de carro.
Pelo Brasil afora, milhares de famílias sofrem diariamente o que dona Raimunda Elias sentiu, conforme mostram os dados do atlas "Acidentes de Trânsito no Brasil: a situação nas capitais", da Abramet. De toda a pesquisa realizada, um dado que alarmou o presidente da Abramet, Flávio Adura, foi o relativo a internações de motociclistas. Em Belo Horizonte, houve um aumento de 42,6% entre os anos de 1999 e 2006 de condutores de motos que se acidentaram e precisaram ficar em hospitais sob cuidados médicos. "Os acidentes com este condutor específico aumentaram muito nos últimos anos e é uma preocupação das autoridades. As políticas de educação no trânsito têm que começar urgentemente a trabalhar com esse grupo de pessoas", afirmou o presidente da Abramet.
A situação se evidencia dentro das enfermarias da Unidade Ortopédica Galba Veloso. No segundo andar do prédio, três grandes salas estão ocupadas por homens que se recuperam ou aguardam cirurgia após sofrerem queda de moto. Em todo o segundo andar, estão pelo menos 15 pessoas internadas por causa de acidentes envolvendo motocicletas.
No leito 48 estava uma dessas vítimas. O jovem Edson Luiz de Oliveira, de 27 anos. Ao lado dele, a mulher Daiane Roque de Azevedo, de 22, grávida de oito meses do primeiro filho do casal. Edson é segurança em uma rede de fast food e voltava para casa à meia-noite quando foi atingido por um veículo no cruzamento da Rua Marechal Hermes com Avenida André Cavalcanti, no Gutierrez, Região Centro-Sul de Belo Horizonte.
O jovem só se lembra quando acordou no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, horas depois da batida. "Só sei que caí em cima do capô do carro, mais nada", contou. Sem previsão de receber alta médica, ele mostra os ferimentos causados no acidente: um corte na cabeça que o deixou em estado grave durante alguns dias, inúmeros cortes na perna e o fêmur fraturado. Para ele, o acidente foi um "aviso de Deus". Mesmo sabendo que a moto é um veículo perigoso, ele garante que sempre tomou muito cuidado. "Nós motociclistas temos um excesso de confiança. Não sei se volto a andar de moto", afirmou.
Ao lado do jovem, também internado, estava o bombeiro hidráulico Carlos Alberto Paulino, 45 anos. Ele e a mulher, que estava na garupa da moto, foram atingidos por um carro no bairro Caiçara. Eles estava, voltando para casa após um dia de trabalho. Agora, ele aguarda uma cirurgia para colocar 16 parafusos na perna esquerda. Mesmo tendo comprado uma moto apenas há um ano, Flávio Fernandes Rodrigues, de 31 anos, não quer mais contato com o veículo. No primeiro acidente grave que sofreu, ele decidiu que quando deixar o hospital vai preferir andar de carro.
Fonte: O Tempo, Patrícia Giudice e Flaviane Paixão, 27/09/2008.
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