Responsável pela transformação do transporte e do trânsito em Bogotá, Enrique Peñalosa diz que quanto mais desenvolvida a cidade, mais seus cidadãos se deslocam em transportes coletivos
A solução dos problemas de mobilidade urbana não é de natureza técnica, mas de estratégia e vontade política. E seja qual for a proposta para melhorar o trânsito da cidade do Rio de Janeiro, ela deve ser colocada em prática imediatamente e contemplar a adoção de mais ônibus, em substituição aos carros particulares, que devem ser retirados das ruas.
A opinião é do ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná, Jaime Lerner, uma das maiores autoridades brasileiras no assunto e defensor intransigente dos sistemas de transporte rápido por ônibus - os chamados BRT -, que participou da Convenção Mobilidade Sustentável na Renovação Urbana, evento organizado pela Michelin e CTS (Centro de Transporte Sustentável), que reuniu políticos e especialistas dias 25 e 26 de novembro, no Rio de Janeiro.
Em sua palestre, Lerner ressaltou o fato de as cidades serem responsáveis por 75% das emissões de carbono na atmosfera, que causam o efeito estufa, e acrescentou que as mudanças climáticas - tema da COP 15, a Conferência Mundial sobre o Clima, que acontece em Copenhague, em dezembro - vão se dar na concepção das cidades. "Repito à exaustão: a cidade não é um problema, é a solução. Mas é preciso decisão política e estratégica para resolver os problemas urbanos. E o futuro da mobilidade está na superfície", afirmou.
Com o exemplo bem-sucedido do BRT de Curitiba, que transporta 2,4 milhões de passageiros por dia, Jaime Lerner avalia que o sistema pode proporcionar excelente mobilidade para o Rio de Janeiro, porque prevê pagamento antecipado e embarque no mesmo nível - uma solução que não existe para o metrô. "As cidades estão entendendo que o dilema entre o carro e o metrô é falso. Não adianta jogar a solução para o futuro, esperando por um metrô que não virá. Não há solução que não seja a superfície".
As propostas do ex-prefeito de Curitiba encontram eco nas soluções adotadas para resolver o problema do trânsito de Bogotá, na Colômbia, uma das cidades com maior densidade demográfica do mundo. Prefeito de Bogotá de 1998 a 2001, Enrique Peñalosa Londoño abriu guerra contra os automóveis durante sua gestão, restringindo tráfego no horário de pico e conseguiu reduzir o tráfego em 40% nas horas de rush.
A solução foi o investimento pesado num sistema de ônibus que atende a cerca de 500 mil pessoas. Bogotá tem 6,5 milhões de habitantes e não conta com sistema de metrô. "Quanto mais desenvolvida a cidade, mais seus cidadãos se deslocam em transportes coletivos", afirmou ao longo de sua palestra na convenção. O sistema de ônibus de Bogotá, o Transmilênio, transporta 45 mil passageiros por sentido/hora, mais do que 95% dos metrôs do mundo, a um custo infinitamente menor.
Há bons exemplo também vindos da América Central. Na Cidade do México, a implantação do Metrobús, em 2005, reduziu à metade o tempo gasto para atravessar a cidade, que antes chegava a até 3 horas, e também os índices de acidentes. Houve redução ainda na emissão de gás carbônico. "Com o novo sistema de transporte, 80 mil toneladas de CO2 deixaram de ser emitidas na atmosfera", destacou Adriana Lobo, diretora do Centro de Transporte Sustentável (CTS) do México, no primeiro dia do evento.
Segundo Adriana Lobo, o sistema de transporte coletivo da capital mexicana estava assistindo uma queda de 10% ao ano no número de usuários, antes da implantação do Metrobús. Mas, depois que o novo serviço de transporte rápido entrou em operação, houve uma demanda adicional de 5% anuais.
Fonte: O Globo, Fetranspor, 28/11/2009.
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