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  • Bicicleta, mobilidade urbana e caos

    Conferência Internacional sobre Mobilidade por Bicicleta debate temas importantes para o futuro sustentável do Brasil


    Brasília hospedou evento inédito este mês: a I Conferência Internacional sobre Mobilidade por Bicicleta, organizada pela ONG Rodas da Paz, que, com o apoio da Embaixada dos Países Baixos, não se limitou a debater as questões, e as imensas carências, do transporte cicloviário no Brasil. A conferência, que contou com a presença de especialistas neerlandeses do International Cycling Expertise (I-CE) de 12 a 15 de novembro, dedicou-se, como era natural – obrigatório –, a lançar um olhar crítico sobre o tema mobilidade urbana, na medida em que inexiste, por estas bandas, efetiva política para garantir a todos o direito de se locomoverem pelo meio que bem entenderem.

    É uma realidade granítica o fato de, no Brasil, preocuparem-se os responsáveis pelo trânsito com o tráfego de veículos automotores. Acima de tudo, com os automóveis particulares, como se as outras formas de mobilidade tivessem pouco ou nenhuma importância. Os eventuais responsáveis pela administração do Estado, em sua esmagadora maioria, não abriram os olhos para as necessidades, a cada dia mais agudas, dos pedestres que habitam as periferias das grandes cidades; dos ciclistas, especialmente os operários e os trabalhadores que dependem da bicicleta para chegar ao trabalho; e dos grupos mais frágeis, crianças, portadores de necessidades especiais e idosos. Consolidou-se, equivocadamente, entre nós, a convicção de que as vias públicas são “propriedades privadas” dos veículos automotores. Equívoco que caracteriza a atuação das autoridades responsáveis pelo trânsito. Insensatamente fixadas em garantir aos automotores um fluxo mais ágil, por intermédio da pavimentação de novas vias combinada com o aumento de velocidade. Sem que essa medida – o aumento de velocidade – solucione o problema de tráfego, que se agudiza, sufoca as grandes cidades e aproxima-se do ponto de não retorno.

    Ou o Brasil adota uma política pública de mobilidade urbana que privilegie o transporte público e as alternativas de deslocamento não poluentes – como locomover-se à pé ou de bicicleta – ou tudo continuará exatamente como está: estrangulado. Porque construir ciclovias e implantar ciclofaixas e rotas cicláveis é importante, é necessário, é fundamental. Assim como dotar as cidades de calçadas salubres, para evitar, como ocorre nas áreas mais carentes, que os pedestres sejam obrigados a caminhar pelas ruas e estradas, correndo risco de morte. Mas na medida em que tais iniciativas forem apenas de um governo, o subsequente – e isso é lugar-comum nos usos e costumes políticos brasileiros, assim como as intenções locutórias que não se transformam em gestos concretos – poderá abandonar o programa de mobilidade urbana de seu antecessor, arquivar projetos, largar de mão o que foi feito e, como sabemos, restará o retrocesso.

    Já passou a hora de o Estado entender que o caos bateu à porta. E que, por isso, é urgente repensar o trânsito. Mas não em relação ao fluxo, à velocidade, à capacidade de acolher a quantidade que se expande de veículos que as montadoras oferecem a prazos de financiamento cada vez mais longos. Se o Estado brasileiro não foi inteligente para compreender que é fundamental estruturar uma política pública que garanta continuidade e recursos não contingenciáveis às ações voltadas para garantir ao trânsito urbanidade, civilidade, o caos será irreversível. E o caos compreende não apenas o asfixiamento das vias públicas em decorrência da incapacidade de acolher o crescente número de veículos. Implicam, igualmente, o total comprometimento do meio ambiente e da saúde pública. Na esteira de mais acidentes, de mais mortes, de mais prejuízos para todos os que, como contribuintes, sustentam o Estado. Se os que podem pensar e decidir não entenderem que uma política de Estado de mobilidade urbana urge, porque o tempo ruge, as crianças em idade escolar continuarão submetidas a um processo educacional para serem motoristas, como hoje ocorre; as grandes cidades tornar-se-ão não o inferno de Dante, mas o inferno à superfície do planeta; e a emissão de gases tóxicos infectados de metais pesados a todos nós asfixiará.


    Fonte: Correio Braziliense – DF, Wilson Teixeira Soares (jornalista, ciclista, conselheiro da ONG Rodas da Paz), 25/11/2008.




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